Há negócios que recomeçam do zero todos os meses e negócios que começam cada mês com a receita do anterior praticamente assegurada. A diferença chama-se SaaS, e explica-se em cinco minutos.
Poucas siglas circulam tanto e se explicam tão pouco. Diz-se «SaaS» numa reunião e todos acenam; basta pedir uma definição para o silêncio se instalar. Vale a pena esclarecer o conceito de uma vez, porque por detrás da sigla está um dos modelos de negócio mais bem concebidos da economia moderna.
Software que se subscreve em vez de se comprar
SaaS é a abreviatura de Software as a Service: software como serviço. Em vez de vender um programa que o cliente compra uma única vez e instala no computador, a empresa dá acesso a uma aplicação através da internet e cobra uma subscrição por esse acesso.
A analogia mais próxima é a diferença entre comprar um disco e subscrever um serviço de streaming. O disco pertence ao comprador para sempre, mas fica congelado no tempo: é aquilo e nada mais. A subscrição cobra uma quantia mensal e, em troca, corrige, atualiza e acrescenta. O produto de hoje é melhor do que o de há um ano, sem que o cliente tenha de comprar nada de novo. Um SaaS funciona da mesma forma, aplicado ao software com que uma empresa trabalha todos os dias: gestão de clientes, faturação, controlo de stock, marcações.
O verdadeiro motor é a receita recorrente
A força deste modelo não está na tecnologia; está na natureza da receita.
Um comércio tradicional começa cada mês a zero: tudo o que vendeu no mês anterior já passou, e é preciso vender de novo. Um SaaS começa cada mês com quase toda a receita anterior intacta, porque os clientes mantiveram a subscrição. Vende-se uma vez; recebe-se muitas.
Esta previsibilidade muda a forma de gerir o negócio. Permite planear com meses de antecedência, contratar com segurança e investir onde importa, porque se sabe, com razoável confiança, o que vai entrar. E há um efeito de acumulação que poucos modelos oferecem: cada cliente novo não substitui o anterior; soma-se a ele. O crescimento assenta numa base que já existe, em vez de a reconstruir mês após mês.
Acresce a retenção que nasce do próprio uso. Um cliente que já tem os dados, os processos e a equipa habituados à ferramenta não a abandona por um desconto da concorrência: mudar tem um custo, e esse custo joga a favor do negócio. Junta-se a economia de escala, porque servir dez clientes ou dez mil exige praticamente o mesmo produto, e percebe-se por que razão a combinação de receita recorrente, retenção e custo marginal baixo faz destes negócios alguns dos mais valiosos do mundo.
Um comércio tradicional recomeça cada mês do zero. Um SaaS começa cada mês com a receita do anterior praticamente intacta.
A oportunidade que Angola tem por construir
Problemas por resolver não faltam, e é neles que reside a oportunidade. A clínica que ainda gere marcações num caderno e perde consultas por esquecimento. A escola que gasta metade do dia em processos que um formulário resolveria. A imobiliária sem forma adequada de mostrar imóveis a quem está longe. A transportadora que não consegue dizer ao cliente onde se encontra a encomenda.
Cada um destes casos é um SaaS por construir, desenhado para a realidade angolana e não importado de um mercado que funciona segundo outras regras. A oportunidade não está em copiar o que se faz noutros países; está em conhecer um setor por dentro, resolver um problema concreto melhor do que as alternativas existentes e cobrar por isso de forma recorrente.
O primeiro passo, ao contrário do que a palavra «software» sugere, não é técnico; é de compreensão do negócio. Definir para quem é o produto e que problema resolve melhor do que qualquer alternativa. Quem tem essa clareza percorreu a parte mais difícil do caminho; a restante constrói-se, de preferência com quem já a percorreu.